NOTICIÁRIO

Cátedra Antonio Paim

Acolhendo proposição do prof. Julio Cabrera, o Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília (UnB) aprovou a criação da cátedra Antonio Paim. Seu propósito consiste em patrocinar cursos anuais de professores ligados ao estudo das filosofias nacionais, no Brasil e na América Latina.

A instalação solene da Cátedra Antonio Paim teve lugar na sessão inaugural da 39ª Semana de Filosofia da UnB, que transcorreu de 6 a 10 de junho de 2011. Presidido pelo prof. Julio Cabrera, o evento contou com a presença de prof. Rodrigo Dantas, Chefe do Departamento e do Prof. Gabrielle Cornelli, Coordenador de Pós-Graduação.As conferências inaugurais estiveram a cargo do prof. Luiz Alberto Cerqueira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e do prof. José Maurício de Carvalho, ambos ex-alunos do prof. Antonio Paim.

Na ocasião o prof. Antonio Paim fez o pronunciamento que adiante se transcreve.

Entendo que a criação, no Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília, de uma cátedra com o meu nome não corresponde a homenagem de caráter pessoal mas a uma das múltiplas formas que a tradição acadêmica deu nascedouro, com vistas à preservação e continuidade de determinada linha de pesquisa.

Com efeito, a geração acadêmica a que pertenço, que amadureceu a trilha a seguir nos anos cinqüenta e a esse mister dedicou-se, mais ou menos até os fins da década de oitenta e começos da seguinte, conseguiu ordenar o conhecimento disperso e intermitente de que se dispunha acerca da filosofia brasileira. Contamos, para tanto, com o método desenvolvido pelo prof. Miguel Reale (nascido em 1910 e falecido em 2006).

O método em apreço destinava-se a averiguar a existência de linhas de continuidade daquela meditação, através da identificação, nos respectivos contextos históricos em que viveram, qual o problema teórico privilegiado pelos pensadores então aparecidos. Tenha-se presente que no início do último pós-guerra, o eminente filósofo italiano Rodolfo Mondolfo --que havia emigrado para a Argentina, uma das muitas vítimas do fascismo-- popularizou o entendimento de que a filosofia era animada pelos problemas, dotados de permanência e longa vida, enquanto os sistemas inevitavelmente acabavam sendo substituídos.

A exploração dessa hipótese proporcionou resultados animadores que, em boa hora, o Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília, com a instituição da cátedra ao tema dedicado, pretende dar início a novo experimento em matéria de preservação.

De nossa parte, havíamos apostado em outra forma consagrada: a de utilização do acervo bibliográfico acumulado para criar, em Salvador, o Centro de Documentação do Pensamento Brasileiro (CDPB), prestes a completar trinta anos, criado  que foi em abril de 1982.

O CDPB ingressa agora em nova fase. Em convênio com a Universidade Católica de Salvador deverá incorporar outro acervo bibliográfico volumoso --temos presentemente cerca de 15 mil volumes de obras de filosofia, pensamento político, sociologia e antropologia, além de numerosa coleção de raras publicações periódicas-- e de alta qualidade, acumulado pelos professores Francisco Pinheiro Lima Junior e  Dinorah Berbert de Castro, de idêntica temática, circunscrita à Bahia. É de destacar que abrange precioso material documental relacionado ao período colonial.

Estamos naturalmente atentos para a nova modalidade de preservação do conhecimento, suscitada pela informática. Acalentamos o projeto de digitalizar todo o conjunto de estudos efetivados sob a luz do método a que nos referimos. Assinalo que na apresentação do site do CDPB quisemos enfatizar o caráter plural da instituição, simbolizado pelos retratos sucessivos de Silvio Romero, Leonel Franca, João Cruz Costa e Miguel Reale.

Não poderia deixar de registrar o papel do patrocinador da criação da cátedra: professor Júlio Cabrera. Sendo ele argentino, filio-o à tradição criada pelos pensadores latino-americanos o boliviano  Guilhermo Francovitch e o mexicano Antonio Gomez Robledo. Ambos originários do meio acadêmico, exerceram funções diplomáticas no Rio de Janeiro. Francovitch concluiu em 1939 o livro Filósofos brasileños que viria a ser, por Francisco Romero, incluído na famosa Biblioteca Filosófica, que editava em Buenos Aires. Robledo, por sua vez, publicou no México, em 1946, La filosofia en el Brasil.

Meu voto de que seja bem sucedido, professor Cabrera.