NOTICIÁRIO

 

 REEDIÇÃO DE LEÔNIDAS DE RESENDE

O Senado Federal vem de reeditar A formação do capital e seu desenvolvimento (Brasília, 2011, 666 p.), de Leônidas de Resende (1889/1950).

Originariamente tratava-se da tese com a qual concorreu à cadeira de economia política da Faculdade Nacional de Direito, realizado em 1932. Nessa época a instituição chamava-se apenas Faculdade de Direito, integrante da recém fundada Universidade do Rio de Janeiro, mais tarde transformada em Universidade do Brasil (a atual Universidade Federal do Rio de Janeiro-UFRJ). Resultante  das duas faculdades, criadas em fins do século XIX e que se fundiram em 1920, era um centro formador de futuros integrantes da elite intelectual, contando sempre com professores de renome. Leônidas de Resende, que já era professor no Curso Anexo, veio a alcançar grande notoriedade, notadamente por ter sido perseguido pelo Estado Novo. Reintegrado com o fim do regime de exceção alcançaria plena consagração como paraninfo da turma de 1949.

A iniciativa é da mais relevantes porquanto esta obra define um dos segmentos da cultura brasileira que corresponde, na verdade, a uma de suas mais arraigadas tradições.

Introduz uma versão do marxismo que entronca com a filosofia dominante na República: o positivismo de Augusto Comte.

Leônidas de Resende é precisamente o autor da tese de que Comte e Marx não só viveram na mesma época como construíram doutrinas idênticas no entendimento da evolução social. Entre os dois existiria apenas uma única divergência: Marx era favorável ao emprego da violência para promover o que afirmava tratar-se de ir ao encontro de inevitável “progresso social”, enquanto Comte preferia o caminho da reforma.

O livro dá nascedouro ao que se convencionou denominar de versão positivista do marxismo.

Esta versão viria a consagrar-se entre outras coisas porque  seria adotada e desenvolvida num outro centro privilegiado para a propagação de idéias: o Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), tarefa de que se desincumbiu o prof. João Cruz Costa (1904/1978), a quem coube dar nascedouro a esse instituto acadêmico.

Tendo sido uma criação dos positivistas que alcançaram posições de mando nas Forças Armadas, a República brasileira registra a vigorosa presença dessa doutrina.

Na bandeira nacional figura a consigna comteana “Ordem e Progresso”. Igualmente duradoura seria a reforma educacional então introduzida, consagradora das teses de que o real esgota-se no plano científico e que existiria uma “ciência social” capaz de prever o futuro.

Igualmente duradoura tem sido a presença positivista na política. Aboliu-se o entendimento, firmado no século XIX, de que o essencial no governo representativo é cuidar da representação, buscando assegurar-lhe representatividade crescente. Em lugar disto, passou a vigorar o entendimento de que a representação vem do saber. Sucessivas lideranças políticas têm sempre levado a níveis tais de ausência de representatividade ao sistema que acabam conduzindo a crises, das quais, nem por sito, retiram-se os adequado ensinamentos.

Certamente, a reedição desse livro não terá o poder de fazer com que segmentos importantes da opinião adotem uma posição crítica ao que se evidencia como uma herança dessa tradição cultural, ora tipificada como maxista-positivista. Mas atende certamente à exigência formulada, por Bárbara Tuchman,  para que um fenômeno social possa ser tipificado como “marcha da insensatez”: o registro de que tenha sido, de algum modo, caracterizado como tal.