Encontros Nacionais de Professores e Pesquisadores da Filosofia Brasileira
1989-2001

Um breve balanço

Leonardo Prota

 

A realização dos Encontros Nacionais de Professores e Pesquisadores da Filosofia Brasileira tem suas raízes no Curso de Especialização em Filosofia: História do Pensamento Brasileiro, criado na Universidade Estadual de Londrina, em 1981, sob a coordenação do Prof. Ricardo Vélez Rodríguez.

Ex-alunos desse Curso, tendo apreendido a discutir a realidade brasileira, ao saírem da Universidade, manifestaram o desejo de poder continuar a se reunirem, sentindo falta desse convívio. Esse fato deu origem à criação do CEFIL – Centro de Estudos Filosóficos de Londrina, em 1987.

A atividade contagiante promovida pelo CEFIL, que contou com a participação efetiva de Antonio Paim e Ricardo Vélez Rodríguez, possibilitou o 1º Encontro Nacional de Professores e Pesquisadores da Filosofia Brasileira.

Nesse 1º Encontro (set. 1989) foram abordados três tópicos: 1. O Estudo das Filosofias Nacionais; 2. A Filosofia Brasileira e seu diálogo com outras Filosofias Nacionais; 3. Pesquisa e Ensino da Filosofia Brasileira.

No Estudo das Filosofias Nacionais, Ricardo Vélez-Rodríguez, após elaborar uma fundamentação que serviria de orientação para os outros expositores, passou a conceituar a filosofia inglesa, identificando-a com a valorização do conceito de experiência. Antonio Paim abordou o tema da Filosofia Norte-americana, em que evidencia a fundamentação básica de um esforço deliberado para recuperar a tradição empirista inglesa com a promoção simultânea de algumas alterações substanciais tendo em vista integrar a experiência humana em sua totalidade; o pensamento de Dewey sintetiza os grandes debates para essa integração. José Carlos Rodrigues descreve O processo de constituição da Filosofia Alemã; Leonardo Prota identifica a Filosofia Italiana com a expressão de liberdade e independência no período do Risorgimetno e da formação da consciência nacional; Ítalo Costa Jóia evidencia, na Filosofia Portuguesa, A preocupação com a idéia de Deus e o problema do mal; Aquiles Côrtes Guimarães abre a discussão sobre a Filosofia Francesa.

No segundo tópico, O Diálogo da Filosofia Brasileira com outras Filosofias Nacionais, Antonio Paim explicita a distinção entre perspectiva, sistema e problema na estrutura do saber filosófico, salientando que a idéia de vincular a filosofia nacional a determinados problemas tem se revelado muito fecunda.

O 2º Encontro (set. 1991), de um lado apresenta um aprofundamento dos temas abordados no Primeiro, sobretudo no referente a Ensino e Pesquisa da Filosofia Brasileira e Filosofias Nacionais, por outro lado introduz um tema novo: O Problema do Homem na Contemporânea Filosofia Brasileira.

Essa escolha foi muito acertada: tratava-se de verificar a hipótese, levantada por Antonio Paim, de que a recente publicação O Fenômeno Totalitário de Roque Spencer Maciel de Barros, indicasse a totalidade como uma dimensão constitutiva do homem. O livro de Roque Spencer, objeto de estudo em Curso oferecido pelo CEFIL, em Londrina, continuou sendo debatido nesse Encontro, contando com a valiosa colaboração de Antonio Paim, Antonio Frederico Zancanaro, Tiago Adão Lara, Gilda Maciel de Barros, Joaquim de Moraes Neto, José Mauricio de Carvalho, e com a participação do próprio autor, Roque Spencer Maciel de Barros.

Essa iniciativa, além de ter trazido elementos valiosos para a clarificação da hipótese mencionada, levou-nos a adotar como praxe debater a obra de um filosofo contemporâneo que, de alguma forma, estivesse associada ao tema de nosso interesse, isto é, às filosofias nacionais, de um modo geral, e à filosofia brasileiras, em especial.
No 3º Encontro (set. 1993), foi objeto de análise e debate a obra do filosofo português Eduardo Abrandes de Soveral. Após uma apresentação do conjunto da obra do pensador português por Antonio Paim, foram abordados os seguintes aspectos: A metafísica em Eduardo Soveral; O absoluto como fundamento da Moral alicerçada na Religião, por Tiago Adão Lara; A epistemologia em Eduardo Soveral: relações entre natureza e verdade e a carência de estatuto ontológico para a ciência, por Ricardo Vélez-Rodríguez e Mariluza Ferreira de Andrade e Silva; A Filosofia da História e da Cultura em Eduardo Soveral e suas conseqüências no terreno antropológico, por Lourenço Zancanaro e Maria Christina de Oliveira Espínola; O estatuto ético-jurídico da sociedade: a proposta de Democracia Cristã em Eduardo Soveral, por Antonio Frederico Zancanaro.

 Os debates, muito animados, contaram sempre com a palavra esclarecedora do Prof. Soveral e deram um exemplo vivo de como as filosofias nacionais, no caso, a filosofia portuguesa contemporânea, contribuem de forma criativa para o patrimônio comum representado pela filosofia universal.

O 4º Encontro (set. 1995) foi dedicado à analise da obra de Antonio Paim. A exposição inicial ficou a cargo de Eduardo Abranches de Soveral, Filosofia Culturalista da Historia em Antonio Paim.

Cultura e Culturalismo é a reflexão que nos propõe Adolpho CRIPPA, que traça um paralelo entre o conceito de cultura como condição indispensável à compreensão do homem e de todos os valores criados e criáveis pela liberdade e a proposta culturalista, apresentada e sistematizada por Antonio Paim em seu novo lançamento, Problemática do Culturalismo.

Sempre no âmbito do conceito de Cultura, Rosa Mendonça de Brito retoma a obra de Antonio Paim, Problemática do Culturalismo, e expõe as idéias do autor indicando origens e fundamentos desse conceito.

Aquiles Cortes Guimarães, em A inspiração kantiana na obra de Antonio Paim, partindo do pressuposto de que Filosofia é dialogo com a cultura, opina que, talvez, essa afirmação seja a mais adequada para caracterizar a atividade filosófica do eminente pensador brasileiro, sobretudo no campo da história das idéias, que constitui o eixo das suas realizações, com a obra mais notável até hoje produzida entre nós. Por esse motivo, Côrtes Guimarães atem-se à analise do culturalismo por Paim ardentemente defendido, posto que de origem kantiana. Nesse contexto, Côrtes Guimarães, retomando a obra citada, Problemática do Culturalismo”oe , define-a como o “Discurso do Método para bem compreender o Culturalismo”.

Ricardo Vélez Rodriguez, debatendo o tema tratado por Aquiles Cortes Guimarães, fixa-se em quatro pontos que considera marcantes: atitude crítica e tolerância; atitude critica e metodologia para o estudo da história das idéias filosóficas; atitude crítica e moral; atitude crítica e educação.

Roque Spencer Maciel de BARROS, na trilha da história das idéias, fixa o contexto em que Paim se afastou do marxismo para ir se aproximando do liberalismo, frisando que “se o presente está grávido do futuro, ele está igualmente encharcado do passado e tanto a continuidade quanto as rupturas exigem o seu exame, para negá-lo, para superá-lo ou reafirmá-lo”. Dessa maneira, salienta BARROS, Paim começou a construir o vasto painel que é a sua obra de historiador de nossas idéias e instituições, com o propósito não só de esclarecer o passado, mas também o presente, e sondar, influindo, à medida que isso é possível no futuro. Esse futuro desejável, que orienta o interesse da investigação sobre o passado – continua Barros - Paim o vê como liberal e democrático, liberalismo e democracia fundados num ideal de formação humanística. Nesse contexto, Barros analisa o conceito de liberalismo em Antonio Paim.

No âmbito do liberalismo salientamos a comunicação de Antonio Frederico ZANCANARO, Antonio Paim: O intelectual e o homem liberal: enquanto que, no mesmo contexto, a problemática educacional é abordada por Rosilene de OLIVEIRA PEREIRA, em O liberalismo e a problemática educacional.

Em fato de educação, Antonio Paim manifesta claramente o seu pensamento a respeito do Ensino Fundamental e da formação profissional, atribuindo ao primeiro a função específica de terminalidade como educação para a cidadania e deixando a função da formação profissional como própria do 2°. grau. Mas, pode-se dizer que em toda a obra de Antonio Paim aflora a questão da Universidade. Leonardo PROTA aborda esse assunto, salientando que duas palavras marcam toda a trajetória do pensamento de Paim a esse respeito, profissionalização e democratização. Na trilha desse binômio, Paim enfatiza a missão da Universidade como formação geral, deixando aos Institutos a incumbência da formação profissional.

O 5º Encontro (set. 1997), em seu primeiro dia, foi dedicado ao tema: Contribuição e Significado da oba de Urbano Zilles. Entre as inúmeras abordagens destacamos o tema desenvolvido por Antonio Paim, “A Filosofia Católica entendida como perspectiva filosófica na obra de Urbano Zilles” e a análise feita por José Mauricio de Carvalho, “A questão da pessoa humana na obra de Urbano Zilles”.

Coroamento de Encontro foi uma Mesa Redonda, coordenada por Antonio Braz Teixeira, sobre o tema “A Filosofia portuguesa contemporânea”. Participaram do debate os seguintes pensadores portugueses: Joaquim Domingues, Pedro Calafate, José Esteves Pereira, Manuel Candido Pimentel, Leonel Ribeiro dos Santos, Eduardo Abranches de Soveral e Norberto Cunha.

O estudo da obra do Embaixador Meira Penna ocupou o 1º dia de debates do 6ºEncontro (set. 1999); sumamente ilustrativa foi a participação do próprio autor, que encerrou esse primeiro dia com uma avaliação criteriosa suscitada pelos debates.
A temática de Ensino e Pesquisa da Filosofia Brasileira teve um enfoque mais prático com a reflexão proposta por José Mauricio de Carvalho, “A questão do material didático para o ensino da filosofia Brasileira.

O estudo das Filosofias nacionais tornou-se uma constante em nossos Encontros; neste, depois de onze anos de estudos, reflexões e debates, fizemos um breve balanço: afinal, por que tanta desconfiança com esse tipo de investigação filosófica? Possivelmente, a explicação esteja no entendimento equivocado a respeito do conceito de Filosofia Universal. O problema não pode ser colocado em termos de oposição e exclusão, Filosofia Universal versus Filosofias Nacionais; mas em termos de constituição: são as Filosofias Nacionais (reflexões e investigações suscitadas por problemas filosóficos que marcaram as distintas tradições nacionais) que constituem e formam a Filosofia Universal, assim como anteriormente eram os sistemas que constituíam o pensamento universal.

O 7º Encontro (set. 2001) abre espaço para analise do pensamento filosófico de Braz Teixeira, com a reflexão proposta por Antonio Paim, A trajetória filosófica de Antonio Braz Teixeira, em que resgata o itinerário do grande mestre lusitano no que tange à metafísica, à ética e à religião, mostrando como tais concepções estão inbricadas na filosofia portuguesa, da qual Braz Teixeira é um dos veneráveis expoentes.

 Na seqüência, Ricardo Vélez Rodriguez, em Antonio Braz Teixeira e o movimento da Filosofia Portuguesa, analisa o conceito de filosofia desenvolvido pelo eminente pensador português, mostrando que essa não é mero discurso abstrato, ao contrário, tem profunda relação com o homem concreto e situado histórico- geograficamente. Isso abre espaço para o debate acerca das filosofias nacionais, posto que as filósofos estão inseridos e desenvolvem seu pensamento a partir de um contexto nacional. A compreensão de Braz Teixeira da chamada filosofia luso-brasileira é objeto de análise de José Maurício de Carvalho; A teologia e a idéia de Deus na obra de Braz Teixeira é enfatizada por Tiago Adão Lara; Aquiles Cortes Guimarães reflete sobre o pensamento jusfilosófico de Antonio Braz Teixeira; sempre na área do direito, José de Deus Luongo da Silveira e Selvino Antonio Malfatti percorrem as principais escolas, resgatando a interpretação de Braz Teixeira sobre as mesmas, concluindo pela discussão da relação entre o direito e poder. Braz Teixeira, filosofo do direito, é o titulo escolhido por Eduardo Abranches de Soveral em suas considerações em que evidencia a metodologia usada pelo pensador português e sua insistência em tratar do fundamento axiológico do Direito. Ubiratan Borges de Macedo focaliza o conceito de justiça em A concepção existencial de justiça em Braz Teixeira, e Mariluze Ferreira de Andrade e Silva, por sua vez, apresenta um novo ângulo do debate em A filosofia da literatura na obra de Braz Teixeira.

Quanto à temática de Filosofias Nacionais, o debate é retomado a partir da publicação recente As filosofias nacionais e a questão da universalidade da Filosofia, por parte de Leonardo Prota.

Nesse livro, o autor trata do processo de formação das prinicpais filosofias nacionais partindo da constatação de que tal processo originou-se como procura de alternativa à Escolástica diante dos problemas suscitados pela ciência moderna.

Longos seis anos transcorreram após esse 7º Encontro. O que permanece, hoje, como visão de conjunto, de idéias e realizações, é um estreito relacionamento entre os participantes, com a respectiva divisão de tarefas, e uma imensa saudade.

(Texto apresentado no VIII  Colóquio Tobias Barreto, patrocinado pelo Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, realizado em Lisboa, setembro de 2007)

Obs.: O CDPB dispõe , em seu acervo, de coleção completa dos ANAIS DOS ENCONTROS DE LONDRINA